sexta-feira, fevereiro 22, 2008

XV

Beber-te! como bebo o ar da vida...
E como bebo a luz do sol doirado...
E a poesia do templo consagrado...
E o consolo no olhar da mãe querida...

Como bebo nos livros do saber
A palavra dos Deuses, e o segredo
Da existência nas folhas do arvoredo...
E em longas noites de cruel sofrer...

Como bebe no cálix o Deus-vivo
Quem o não sente andar dentro de si...
Como eu nesses teus olhos já bebi
A água que hei-de beber enquanto vivo!


Antero de Quental, Primaveras Românticas

Certas palavras

Certas palavras não podem ser ditas
em qualquer lugar e hora qualquer.
Estritamente reservadas
para companheiros de confiança,
devem ser sacralmente pronunciadas
em tom muito especial
lá onde a polícia dos adultos
não divinha nem alcança.


Entretanto são palavras simples:
definem
partes do corpo, movimentos, atos
do viver que só os grandes se permitem
e a nós é defendido por sentença
dos séculos

E tudo proibido. Então, falamos.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Amor é bicho instruído

Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

Carlos Drummond de Andrade

...

Muitas vezes procuro essa mão
Muitas vezes tive-a perto de mim
Recordo a mão
Sei que se estender a minha a tua estará ali.

Ode ao gato

Os animais foram
imperfeitos,
compridos de rabo, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco se foram
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, vôo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.

O homem quer ser peixe e pássaro,
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento ao rato vivo,
da noite até seus olhos de ouro.

Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma só coisa
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
firme e sutil é como
a linha da proa de um navio.
Seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para jogar as moedas da noite.

Oh pequeno
imperador sem orbe,
conquistador sem pátria,
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na intempérie
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no solo,
cheirando,
desconfiando
de todo o terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.

Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundíssimo gato,
polícia secreta
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
seguramente não há
enigma
na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti e pertences
ao habitante menos misterioso,
talvez todos o acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gatos, companheiros,
colegas,
discípulos ou amigos
do seu gato.

Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço ao gato.
Tudo sei, a vida e seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica,
o gineceu com seus extravios,
o pôr e o menos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casaca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
o seu olho tem números de puro.

Pablo Neruda

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Viver não dói

Definitivo, como tudo o que é simples,
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas
e não se cumpriram.

Por que sofremos tanto por amor?

O certo seria a gente não sofrer,
apenas agradecer por termos conhecido
uma pessoa tão bacana,
que gerou em nós um sentimento intenso
e que nos fez companhia por um tempo razoável,
um tempo feliz.

Sofremos por quê?

Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer
pelas nossas projeções irrealizadas,
por todas as cidades que gostaríamos
de ter conhecido ao lado do nosso amor
e não conhecemos,
por todos os filhos que
gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,
por todos os shows e livros e silêncios
que gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados,
pela eternidade.

Sofremos não porque
nosso trabalho é desgastante e paga pouco,
mas por todas as horas livres
que deixamos de ter para ir ao cinema,
para conversar com um amigo,
para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe
é impaciente conosco,
mas por todos os momentos em que
poderíamos estar confidenciando a ela
nossas mais profundas angústias
se ela estivesse interessada
em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu,
mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos,
mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós,
impedindo assim que mil aventuras
nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e
nunca chegamos a experimentar.

Como aliviar a dor do que não foi vivido?

A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!

A cada dia que vivo,
mais me convenço de que o
desperdício da vida
está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca,
e que, esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável.

O sofrimento é opcional


Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Valsinha

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar

Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado, cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se ousava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouviam mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz

Chico Buarque de Holanda e Vinícius de Moraes



Proposta de Vinícius de Moraes

VALSA HIPPIE
Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um modo mais quente do que comumente costumava olhar
E não falou mal da poesia como era mania sua de falar
E nem deixou-a só num canto; pra seu grande espanto disse:
Vamos nos amar

Aí ela se recordou do tempo em que saíam para namorar
E pôs seu vestido dourado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como a gente antiga costumava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a bailar

E logo toda a vizinhança ao som daquela dança foi e despertou
E veio para a praça escura, e muita gente jura que se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouviam mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu em paz.

Vinicius de Moraes
Fonte: Livro Achados de Caique Botkay, Editora Nova Fronteira

Veja ainda a resposta de Chico Buarque de Holanda

In: http://chicobuarque.uol.com.br/construcao/mestre.asp?pg=notas/n_valsinha1.htm

sábado, fevereiro 09, 2008

Cidade

Cidade, rumor e vaivem sem paz das ruas
Ó vida suja, hostil, inultilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planices mais vastas
Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.

Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.



In: ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, Obra poética I

O Crime

Quem não é filho de Caim?
Abel não deixou filhos.
Mas em Caim, havia Abel.
E somos todos
A vítima e o carrasco
No mesmo ser...
A criatura e o criador
Na mesma fera,
O pecado e o remorso
No mesmo Deus.

In: PASCOAES, Teixeira de, Últimos Versos, p.16

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Pausa para café

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Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.














Sabe bem, não sabe?!

Aqui nada falta, até os meus amigos cá estão.

Claro, Casa Marisca é o que está a dar.

Casa Marisca Restaurante - Cervejaria

Estava um lindo dia de chuva, alguma humidade e frio (a parte do frio foi para disfarçar, mas quente não estava). Andávamos nós tentar saber onde iríamos almoçar quando um afirmou haver uns restaurantes na rua de baixo. Assim, optamos por um restaurante que alguém se lembrou como sendo próximo e até nada mau.
- Come-se bem. – Dizia um.
- Sim, também já lá estive uma vez. – Retorqui eu ao chegarmos mais perto.
A chuva continuava intensa, mas lá entramos e fomos sentar a uma mesinha que se encontrava com o letreiro de “Reservada”. Claro que quem nos indicou a tal mesa foi lá o senhor que andava a orientar o serviço à mesa.

Devoramos as entradas, fizemos os nossos pedidos e deliciámo-nos com o que comemos, exceptuando-se aquelas duas almas que não tinham pedido o arroz de lapas.

De repente um de nós disse:
- Parece-me que se pode fumar na parte debaixo deste restaurante.
Fiquei logo em pulgas, e certifiquei da veracidade da afirmação junto do que andava a servir às mesas e logo decidi que iria tomar o café de final de refeição naquele espaço maravilhoso. Imagine-se que até tem acesso por uma escada interior.

Lá descemos. Ao iniciar a minha descida comecei a inalar um cheiro familiar. Sim, sim, era o perfume tão doce e característico daquelas folhas de tabaco.

Sentamo-nos à mesa, novamente, e foram servidos os cafés. Estava tudo com um ar de satisfação indescritível. Bebemos café e fartamo-nos de fumar (pelo menos eu).

Seguiu-se uma sessão fotográfica, mas as imagens não ficaram muito boas devido à comoção em que nos encontrávamos.










O grupo.











A vítima...


Só vos digo, a Casa Marisca passou a ser um lugar de culto para esta humilde fumadora.










O espaço interior.











Adoro autocolantes Azuis.

Aqui vos deixo o endereço para que mais facilmente possam chegar a este local de culto:


Rua Engenheiro José Cordeiro 125
9500-311 PONTA DELGADA
São Pedro
São Miguel
Açores


Telefone
296382780

sábado, janeiro 12, 2008

750€

Ora, mais uma semana que passou e nada de novo.
Assim fica difícil de se escrever seja o que for. Pese embora algumas “coisitas” pelo mundo, “coisitas” também nada de novas. Deviam mas era inovar. Até estou a pensar aqui numas coisas bem giras, mas bem giras mesmo.
Então vejamos, é preciso algo de novo. Assim, tipo algo diferente. Estou aqui a pensar naquilo que gostaria que o meu país fosse diferente.
Reflectindo, nos EUA e no Canadá é proibido o fumo, certo? Então, para não estarmos aqui a fazer sempre o que todos os outros fazem, com a agravante de se fazer anos de luz mais tarde, deveríamos era permitir o fumo por todo o lado. É que vendo bem as coisas já o permitimos, é vê-lo a sair todo feliz pelos tubos de escape dos nossos “pópós”, carrinhos, autocarros e semoventes afins, é vê-lo dançando o tango pelas chaminés das nossas indústrias transformadoras, é vê-lo no Verão em toda a sua magnitude durante e após um grande incêndio (pois, o incêndio tem é de ser grande, caso contrário seria apenas uma mísera fumaça).
Se assim é, que mal tem o “fuminho” de um “cigarrito” (seja ele de que marca for).
Vá, digam lá, que mal tem?
Só de pensar nas coisas maravilhosas que se fazem com o “fuminho” de um “cigarrinho” até fico arrepiada. É ver fazer círculos, todos muito lindos e perfeitos, depois passar um outro “fuminho” por entre esse círculo.
E fumar em grupo.
Possa, isto até é que é mesmo delirante, é a partilha, a dádiva de um para o outro daquilo que é tanto dos pulmões de cada qual. A isto é o que chamo de verdadeira harmonia entre os pares. Sim, sim, harmonia. Qualquer fumador vendo outro fumador é capaz de partilhar aquela coisa mais linda com o outro, nem que seja o “fuminho” dele.
E sabem o que ainda é bem melhor? Sabem?
É a dança dos isqueiros, “Olha dás-me lume?” e é ver isqueiros todos felizes a saírem das carteiras e dos bolsos todos eles muito animados.
Pára tudo (inclusive eu).
O Jorge Palma está lixado.
Que cena!
Como é que ele agora irá cantar a coisa do “dá-me lume”?
"- São 750€ meu senhor."

segunda-feira, janeiro 07, 2008

A tradição

Hoje, lá no local de trabalho, vieram ter comigo com uma conversa do género:
- Nós por cá temos uma tradição... realizamos um sorteio anual, assim a seguir ao dia de Reis, no qual sai a “sorte” a alguém que no próximo ano terá de comprar um Bolo Rei.
De seguida, continuou:
- Colocamos umas rifas e todos tiram uma, depois a quem sair a rifa premiada compra o tal bolo.
Achei interessante, até que sou um pouco pela continuidade das tradições instituídas, e nem as questiono muito.
Bem, já se está a ver que aceitei a tal coisa da rifa e das sortes, mas antes questionei o porquê de nunca o terem perguntado, atendendo que por ali ando desde 2003. Mas, enfim, segui adiante e não questionei mais.

Passaram-se algumas horas e estava eu ao telefone quando apareceu uma “cabecita” à porta do meu gabinete tipo a querer dizer que iriam dar início ao processo. Bem, eu estava ao telefone e nele continuei. O tempo prosseguiu e assim que tive oportunidade lá me dirigi ao tal gabinete onde seriam tiradas as tais sortes. Para meu espanto, no envelope das rifas só restava uma. Sim, apenas uma, a minha. E para meu maior espanto era a rifa premiada.
Fiquei surpresa, em toda a minha vida jamais me havia saído algo numa rifa e logo hoje tinha algo escrito naquele pequeno papel enrolado (se bem que tenho de confessar que nunca comprei uma dessas coisas embrulhadas).
Para não alongar mais isto, o facto (ou fato) é que no próximo ano terei de comprar o tal Bolo Rei. Porém, ainda subsiste em mim uma dúvida existencial: saiu-me mesmo aquela coisa das sortes, ou estarei a sonhar?!

Bem, lá terei de fazer manter a tradição, mas penso que depois do meu bolo jamais irão querer que a tradição passe pelas sortes.

Facto ou fato, ou como queiram...

Vim arejar, abrir uma janela e deixar entrar um pouco do frio do Inverno.
Não consigo saber o porquê de não vir aqui desde o ano passado (vá, assim fica a parecer que não coloco os dedos por estas bandas há muito tempo – confesso que agora até fiquei arrepiada.).

Não sei bem o que escrever, poderia até tentar algo diferente...
Sei lá...
Talvez o pino (elemento artístico que coloca as mãos no solo e os pés no ar).
Sim, poderia fazer o pino e depois tentar equilibrar-me numa mão apenas, correndo o enorme risco de me estatelar em cheio no chão (“cair toda junta” – expressão que me amassa a alma quando ouço).
Mas não, o melhor é não tentar isso, com a agravante de que teria de ter um adulto por perto caso intentasse em tal aventura.

Estou com algumas dúvidas. Acho que até não estou a gostar muito disso.
Ah! Lembrei-me de uma coisa muito importante. Lembrei da Camila, não perguntem porquê, mas agora lembrei dela, mais informo que julgo que esteja de saúde e rodeada pelos filhotes.

Será que com o novo acordo ortográfico algumas das minhas palavras passarão a fazer sentido? (mais uma dúvida).

O melhor é deixar isto aqui por aqui mesmo, não estou a escrever coisa com coisa, e “a não sei das quantas não bate com a perdigota” (é o que digo – FUI).

terça-feira, dezembro 18, 2007

...




Em tons de negro
Ao som do vento
Em sabores de saudades
Na ânsia do querer
Sinto a noite entrar em mim

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Só porque é nesta quadra

E agora não é para dizer que só estou a pensar nas prendas.

Já agora, permitam-me que vos chame atenção ali para a lesminha, perto da àrvore, assim onde começa a sombra, no canto inferior direito. Mais informo que a mesma possui uma botija de àgua quente, um cachecol e um gorro que lhe cobre os seus pequenos olhos.

[devido a problemas de ordem técnica foi retirada a linda àvore de natal que aqui se encontrava, e, com ela, a lesminha decidiu emigrar para um país nos trópicos.]

sábado, dezembro 08, 2007

Estudo sobre o mar

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Foto by: eu mesma

sábado, dezembro 01, 2007

Flor

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Foto by: eu mesma

segunda-feira, novembro 26, 2007

Sete Cidades

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Foto by : eu mesma

domingo, novembro 25, 2007

O prometido é devido

Havia prometido trazer aqui algo muito interessante que existe na minha linda cidade de Ponta Delgada.

Era uma vez uma rua muito, mas muito, estreita, com passeios muito, mas muito, minúsculos.

Um dia essa rua começou a ver uma parte do seu passeio a tomar conta da rua. Pensaram todos que por lá passavam, durante tal intervenção:
– É desta que teremos aqui uns passeios mais largos. Passeios que nos permitam manter os dois pés fora da rua.

Porém, assim como quem não tá mesmo nada a prever, começa a surgir algo de estranho naquele alargamento do passeio. Pensaram agora todos os condutores que por lá passavam:
– É bem, vão colocar mais uns parquímetros por aqui. – e, aborrecidos, com mais uma máquina daquelas a povoar as ruas da nossa Ponta Delgada, prosseguiam caminho.

Todavia, vai que de um momento para o outro, surge algo assim para o “grandote”, preto, parecia nem sei bem o quê. Todos que por aquela rua passavam interrogavam-se:
– Mas que vem a ser isto? Que vem a ser isto?

E assim, como se de algo muito básico se tratasse ouviu-se alguém murmurar:
– É arte, é a arte meus amigos. Arte para vos entrar pelos olhos e esbarrarem nela.






















Agora um exercício muito oportuno.

Imaginem que não conseguem ver. Sim, cegos mesmo, não os distraidos.

Imaginem lá, rua estreita, passeio esguio, passeio um pouco mais largo, vaso de flores, objecto não identificado pelo meio, mais um vaso de flores, passeio novamente esquio.

Certo que para um invisual é já bastante difícil percorrer as lindas ruas estreitas da minha linda cidade. Contudo, mais certo é que obstáculos como estes jamais deveriam ser colocados num passeio, mesmo sendo “obras de arte”.

Para concluir, e na tentativa de vos dar a conhecer o autor de tal escultura, capturei aquilo que julgo se a sua assinatura (julgo que deve ser a digital, pois não percebi nada da suposta inscrição que lá está).













Fotos by: eu mesma