sexta-feira, abril 25, 2008

25 de Abril


Interessante admiração essa do Presidente da República Portuguesa ao demonstrar admiração pelo conhecimento insuficiente dos Jovens Portugueses sobre a Revolução de Abril.

Será que este nosso Presidente conhece a realidade das nossas escolas e das nossas famílias?

É que fica difícil cumprir um programa curricular e dar a conhecer, com o aprofundamento necessário, factos da nossa história (que por natureza é densamente rica) nos tempos que correm.
Ora vejamos, do pouco que conheço, a Revolução de Abril é focada nos anos terminais, ou seja, 4º ano, 6º ano, 9º ano, sabendo que é um conteúdo do 3º período, sabendo que é neste período a preparação para exames, sabendo que o calor aperta demasiado (e as escolas, na sua maioria, não têm ar condicionado), sabendo que os professores têm de cumprir o programa (anos terminais, certo?), sabendo que estes mesmos professores tiveram de concluir o programa do ano anterior (pois o tempo atribuído às aulas de História não é o suficiente), como é que se quer que tal acontecimento seja dado com a profundidade necessária.

Passemos às famílias portuguesas, que tempo útil possuem para estar com os filhos? Se a classe trabalhadora sai de casa pela madrugada e regressa quase de noite, como é que estes pais conseguem dar o acompanhamento devido aos seus rebentos?

Nem me debruço mais sobre estes aspectos atendendo à noticia que li logo a seguir.

Então o nosso 1º Ministro, Sr. Eng. José Sócrates, pretende disponibilizar tempo aos jovens para os despertar para a política? E só toma essa decisão porque Sua Excelência o Presidente da República Portuguesa está admirado com a insuficiência de conhecimento dos jovens portugueses sobre a Revolução de Abril? Os jovens precisam de mais, de muito mais.

Nestes meus trintas e poucos anos fiquei foi verdadeiramente revoltada e nem pretendo apontar o dedo a alguém. Só gostaria que parassem um pouco de demagogias e pensassem no pais real em que (sobre)vivemos.

quinta-feira, abril 24, 2008

Está de gritos

24 de Abril de 2008

SAÚDE: Dia sem preocupações; viverá este dia em plena harmonia e tranquilidade,pois energias positivas envolvem a conjuntura. Na saúde esteja atenta a problemas nas vias respiratórias.

AMOR: Poderá passar por um bom período sentimental. Parta para uma nova meta na vida; uma clarificação de sentimentos é primordial.

PROFISSÃO: Ponha no lugar algumas pessoas incompetentes, e faça valer as suas ideias e opiniões. Projectos a longo prazo, encontram-se sobre influência positiva.

quarta-feira, abril 23, 2008

If you were a sailboat

Am............................................ FM7
If you were a cowboy I would trail you,
Am ................................. FM7 ......................C
If you were a piece of wood I’d nail you to the floor.
Dm .............................G .............................. C
If you were a sailboat I would sail you to the shore.
If you were a river I would swim you,
If you were a house I would live in you all my days.
If you were a preacher I’d begin to change my ways.

Am......................... FM7
Sometimes I believe in fate,
..................................G
But the chances we create,
....................................FM7
Always seem to ring more true.
Dm ..................................... G
You took a chance on loving me,
...........................................C
I took a chance on loving you.


If I was in jail I know you’d spring me,
If I was a telephone you’d ring me all day long.
If I was in pain I know you’d sing me soothing songs.

Sometimes I believe in fate,
But the chances we create,
Always seem to ring more true.
You took a chance on loving me,
I took a chance on loving you.

If I was hungry you would feed me,
If I was in darkness you would lead me to the light.
If I was a book I know you’d read me every night.

If you were a cowboy I would trail you,
If you were a piece of wood I’d nail you to the floor.
If you were sailboat I would sail you to the shore.
If you were sailboat I would sail you to the shore.
If you were sailboat I would sail you to the shore.


Katie Melua

sexta-feira, abril 18, 2008

Em jeito de...

Foi mesmo uma daquelas semanas, nem quero acreditar que hoje é 6ª Feira!, ainda estou para saber como é que ontem foi 2ª Feira.
Mas que foi uma semana em grande lá isso foi.
O Sporting ganhou ao Benfica, por uns incríveis 5 – 3.
O Menezes demitiu-se do PSD, e ao que me parece, devido a uma forte dor de cabeça.
Não apanhei nenhuma multa de estacionamento.
Os cafés nem foram maus, exceptuando-se o de hoje de manhã que nem me lembro bem o motivo de o ter tomado só depois das 10:30 (eu até sei, mas prefiro nem dizer).
E neste momento tenho dois portáteis ligados, pois ainda quero ver porque motivo um documento em excel não quer abrir (prevejo um lindo fim-de-semana).
Já agora, alguém viu onde coloquei aquela webcam de colocar nos portáteis? Queria mesmo experimentar com aquela coisa nova que a malta da informática deu para todos nós.

Mais tarde virei escrever algo mais decente, pois por ora só me sai isto.

Lamento...

P.S.: A quem souber da tal webcam agradece-se a informação em troca de uma recompensa.

Garfield


quarta-feira, abril 16, 2008

Desejo

"Desejo a você...
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua Cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender uma nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel...
E muito carinho meu."


Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, abril 09, 2008

AJURPE

Palavras para quê?
Esta iniciativa da Associação Juvenil de Rabo de Peixe é de louvar.
Deixo aqui o registo e felicito-os.

Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.
Foto by: eu mesma

sexta-feira, abril 04, 2008

terça-feira, abril 01, 2008

Soma

O que o teu amor me dá:

a pérola no centro,
a exacta e pequena pérola
por onde a luz se esvai,
num fechar de olhos,
entre nós.

E o riso tão inesperado
nesse campo de cansaço
em que o repouso
cresce, trazendo a razão
aos braços da loucura.

Os teus olhos onde
os meus mergulham, lago
manso da tarde que
empurramos, à janela,
até o dia inteiro
ser madrugada.

E ver-te acordar, como
o brilho que salta de antigas
colinas e se espalha
por frescos lençóis de
onde te roubo, abrindo
a manhã.


JÚDICE, Nuno, O Estado dos Campos

terça-feira, março 25, 2008

É urgente o amor

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade

quinta-feira, março 13, 2008

Eramos 7 nasceram mais 7 ficamos 14


Hieronymus Bosch, Mesa dos Sete Pecados



Ainda estou a meditar sobre os novos pecados capitais apresentados na orientação do Arcebispo Gianfranco Girotti.

Ora vejamos, éramos 7

1-Gula
2-Luxúria
3-Avareza
4-Ira
5-Soberba
6-Vaidade
7-Preguiça

Eu com estes posso bem, pois até considero-me uma pessoa cumpridora das leis da Igreja, se bem que por vezes salta-me a tampa, mas isso não significa que esteja irada; ou mesmo quando como mais um “cadinho” confesso que não é por gula, é por que deitar ao lixo comida tão boa, enquanto milhares de pessoas passam fome, não seria justo, muito menos correcto.

Está certo, Está certo, gosto bastante de me ver ao espelho, e até nem sou assim tão gira.

Quanto à preguiça que eu sinto é à 2ª feira de manhã, ao que penso, essa não deve contar.



in: http://www.estadao.com.br/geral/not_ger137279,0.htm


Nasceram mais 7 e agora somos 14

8-Violação bioética (controlo da natalidade…)
9-Manipulação genética
10-Uso de drogas
11-Poluição ambiental
12-Desigualdade social
13-Riqueza excessiva
14-Geração de pobreza

Sendo que estes novos encontram o seu fundamento no que afirmam ser o contexto social causado pela Globalização.

Quem deveria ser mandada ao castigo era essa da Globalização. Mania, sempre em frente um passo do restante povinho (sim, porque somos nós - o povinho - que nos dirigimos ao confessionário).

Agora, olhando bem as coisas, está mais que resolvido a questão do confessionário, ora vejamos:

Povo que se confessa, confessa-se pelo menos 1 vez por semana (o que não é bem o meu caso, mas para lá caminharei com essa da poluição ambiental – esta coisa do tabaco está mesmo a complicar-me a vida, já não me bastavam a chuva e o frio).

Com os novos pecados prevê-se um aumento de cerca de 2% da afluência aos confessionários. Contudo alerto para o facto de que esta percentagem é uma previsão meramente pessoal e que a tendência da mesma é para diminuir.



Algo que encontrei e achei delicioso, vejam lá se os fins não justificam os meios:

Lamento

O arcebispo aproveitou para fazer um lamento. Segundo ele, cada vez menos católicos aparecem no confessionário. Estudo da Universidade Católica de Milão mostra que 60% dos fiéis da Itália deixaram de se confessar. O próprio estudo, de certa forma, esclarece este comportamento. Entre os entrevistados 30% acreditam que não há necessidade de um padre como intermediário do perdão divino, e outros 20% se sentem desconfortáveis relatando a terceiros seus próprios pecados. Segundo o arcebispo, a confissão deve ser feita em 15 ou máximo 20 dias antes ou depois de cometer o pecado. Seria a redenção de todos os pecadores.


In: http://www.clicabrasilia.com.br/impresso/noticia.php?edicao=1883&IdCanal=5&IdSubCanal=&IdNoticia=320941&IdTipoNoticia=1

Acedido a 2008/03/13


Eu é que lamento. Lamento ainda mais o facto de poder ser admitido que se possa confessar o pecado 15 a 20 dias ANTES de o cometer (ainda estou na dúvida se li aquilo bem?).

quarta-feira, março 12, 2008

Agradecimento

Paula,
Que me deste Inês
Não a de Castro
Mas a Pedrosa
Numa viagem me mandaste
Em tons de azul e de rosa
De Martim Codax
Como que por magia
Regressei ao tempo
Em que havia
Cortes esplendorosas
Fidalguias
E D. Dinis
Atirou-me
A Afonso X
A Espanha
O Sábio que foi
E que a Maria cantou

A ti Paula
Agradeço
E aqui me confesso
Remetida à poesia

quarta-feira, março 05, 2008

O prometido

Andar na minha cidade é uma aventura, principalmente no que respeita à zona costeira que tanto amo.

Por um lado, as obras da Secretaria Regional da Habitação e Equipamentos que até incomodam muito pouco a circulação por aquele espaço. Claro que terei de habituar a minha visão à nova proposta paisagista, mas nada que me seja impossível de fazer, até porque, por vezes, as mudanças são necessárias.

Entre as máquinas está um golfinho a sorrir para a câmara fotográfica.

Vista interessante (SRHE)

Por outro lado, a intervenção da Câmara Municipal de Ponta Delgada no que chamam de “Parque de estacionamento subterrâneo”.

Se no caso da SRHE a obra sempre esteve aberta a curiosos, já no caso da CMPD isto não aconteceu. Foi preciso muito esforço para conseguir umas imagens sobre o facto em si, e diga-se, apenas do lado que já está quase, quase pronto (isto deixa-me a pensar se aquilo é mesmo verdade ou se é apenas ficção).


Vista superior (CMPD)


Para mais, convém referir que há obras que me atrapalham e outras que nem tanto.

Esta inclinação é para ver se os autocarros começam a passar mais devagar.

Ora vejamos, a nova paisagem oferecida pela SRHE não implicou que eu deixasse de passear as rodas do meu carro pela avenida. Contudo, já as obras da CMPD, para além de me impedirem de passar pela avenida ainda congestionaram a circulação de viaturas na baixa da cidade.

Convenhamos que os percursos alternativos são caóticos, e isto para nem falar dos autocarros que impõem algum respeito, não só pelo tamanho, como também, pela velocidade com que passam por mim.

Estou aqui a pensar como reagiria se tivesse mais de 70 anos e necessitasse de utilizar a minha viatura para me deslocar à baixa. Sim, porque tenho de ir fazer umas análises clínicas, e aproveito gasto a pensão na farmácia mais perto, e porque o meu médico de família tem o consultório naquela rua estreita em que sempre enfio a bengala no empedrado mal colocado, e para aproveitar e levantar a encomenda com os produtos de 1ª necessidade que o meu enteado me manda por correio, que por ter mais de 2kg o carteiro não pode deixar em casa, e que se viesse para entregar ao domicílio seria muito mais caro e o meu enteado optava por não colocar a farinha com a qual faço o pão ao longo do mês.

Mas voltando à avenida. Agradeço à alma caridosa que me enviou algumas fotos sobre este espaço que durante anos foi de eleição para muitos e, penso, que voltará a ser para mais alguns.

segunda-feira, março 03, 2008

Quem sabe?

Confesso que esta é a terceira vez que tento escrever algo para colocar aqui no blog, e que as outras duas tive mesmo de apagar por uma questão de bom senso.

Não sei bem o que se passa, mas parece que me falta algo.

Parece-me que aquela minha falta de jeito anda a querer apoderar-se de mim mais uma vez.

Tenho andado a reflectir um pouco sobre tudo, e, claro, o resultado não poderia ser outro, uma grande confusão. Vá, quem me manda a mim tentar pensar um pouco sobre tudo? (Agora ali no lugar do “mim” provavelmente deveria ter escrito um “eu”, mas deixo isso à consideração de quem lê.)
Já não basta quando penso um pouco sobre um pouco? E mesmo assim parece que endoideço. Quem mandou pensar sobre tudo?

Facto recente é que a rua que atrapalhava o meu percurso diário está quase, mas quase, novamente operacional. Porém, parece que deverá levar mais uns quatro meses só para fazer as passadeiras, e agora estão com a mania de as fazerem em empedrado. Fica giro, é certo, mas estão a demorar um pouco para além da conta, não acham? Talvez quando as recuperações do nosso Museu terminarem as passadeiras já lá estarão. Quem sabe? Talvez.

Estou um pouco cansada de ver esta minha cidade de pernas ao ar. São buracos por todos os lados. Ruas esburacadas, travessas esburacadas, até a avenida está esburacada. (Mas sobre a avenida ficará para mais tarde.)

Não vejo o dia de ter a minha cidade devolta a mim, a nós. (Estava a ser um pouco egoísta.) Já nem consigo lembrar de como era antes e isto não é nada bom. Se tivesse presente essa imagem de antes poderia muito mais facilmente absorver a nova imagem que lhe querem dar.

Agora lembrei de uma música dos Tunídeos:

“Longe de ti não sei viver
Minha pacata cidade
Onde aprendi a crescer
Também a sentir saudade

Dos amores que eu vivi
Nesta vida amargurada
Nenhum se compara a ti
Ó doce Ponta Delgada”

Agora fiquei nostálgica. (Vou ter de ir ao dicionário resolver isto.)

James


By: Mark Tonra

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

XV

Beber-te! como bebo o ar da vida...
E como bebo a luz do sol doirado...
E a poesia do templo consagrado...
E o consolo no olhar da mãe querida...

Como bebo nos livros do saber
A palavra dos Deuses, e o segredo
Da existência nas folhas do arvoredo...
E em longas noites de cruel sofrer...

Como bebe no cálix o Deus-vivo
Quem o não sente andar dentro de si...
Como eu nesses teus olhos já bebi
A água que hei-de beber enquanto vivo!


Antero de Quental, Primaveras Românticas

Certas palavras

Certas palavras não podem ser ditas
em qualquer lugar e hora qualquer.
Estritamente reservadas
para companheiros de confiança,
devem ser sacralmente pronunciadas
em tom muito especial
lá onde a polícia dos adultos
não divinha nem alcança.


Entretanto são palavras simples:
definem
partes do corpo, movimentos, atos
do viver que só os grandes se permitem
e a nós é defendido por sentença
dos séculos

E tudo proibido. Então, falamos.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Amor é bicho instruído

Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

Carlos Drummond de Andrade

...

Muitas vezes procuro essa mão
Muitas vezes tive-a perto de mim
Recordo a mão
Sei que se estender a minha a tua estará ali.

Ode ao gato

Os animais foram
imperfeitos,
compridos de rabo, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco se foram
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, vôo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.

O homem quer ser peixe e pássaro,
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento ao rato vivo,
da noite até seus olhos de ouro.

Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma só coisa
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
firme e sutil é como
a linha da proa de um navio.
Seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para jogar as moedas da noite.

Oh pequeno
imperador sem orbe,
conquistador sem pátria,
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na intempérie
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no solo,
cheirando,
desconfiando
de todo o terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.

Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundíssimo gato,
polícia secreta
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
seguramente não há
enigma
na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti e pertences
ao habitante menos misterioso,
talvez todos o acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gatos, companheiros,
colegas,
discípulos ou amigos
do seu gato.

Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço ao gato.
Tudo sei, a vida e seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica,
o gineceu com seus extravios,
o pôr e o menos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casaca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
o seu olho tem números de puro.

Pablo Neruda